Com uma trajetória de 18 anos no terceiro setor, Maysa Gil, diretora-executiva do Instituto JCA, co-diretora da Terra Saúva e conselheira em organizações sociais, foi uma das brasileiras selecionadas para participar da American Express Leadership Academy 2024. Um programa internacional promovido pela Common Purpose com a American Express que reuniu 76 lideranças das Américas, com encontros online e uma imersão presencial em Nova York. Nesta entrevista, Maysa – que também é mãe da Laura Gil, poeta e moradora de São Gonçalo – compartilha o que viveu, os bastidores da viagem e o que trouxe na bagagem para sua atuação local.
Instituto JCA: Como surgiu a oportunidade de participar da American Express Leadership Academy?
Maysa Gil: Foi por um amigo, o Esteban. Ele recebeu o pedido da organização para compartilhar a vaga com pessoas que ele acreditava ter o perfil. Quando ele me manda, eu falo: “Hum, é para mim”. Mas não foi fácil. Tinha um formulário com perguntas em que eu precisava reconhecer bem forte não o meu perfil de liderança, mas esse histórico de 18 anos estando em liderança e em diferentes posições. Além de perguntas sobre conquistas dentro e fora da organização, o que eu esperava ao participar do programa e também um pouco dessa minha perspectiva de futuro no âmbito profissional. Tudo isso com bastante objetividade, algo desafiador para mim, que se expressa com certa poesia.
Instituto JCA: Você considera que essa característica te diferencia?
Maysa Gil: Eu sinto que sim. Talvez antes eu achava que isso era um problema, mas eu já me chamei de diplomata criativa nesse período de processo de liderança e eu falo: “Eu sou uma executiva poética”. Também é isso. Sou eu, isso me constitui.
Instituto JCA: Como você se sentiu ao ver seu nome na lista de selecionados?
Maysa Gil: Eu fiquei tão feliz. Eu passei por vários estágios. Primeiro passei por um estágio de desejar muito e falar: “Isso tem tudo a ver comigo!”, mas também tive momentos de dúvidas durante o processo de escrita da inscrição. Quando eu soube do resultado, eu chorei e ri ao mesmo tempo, e também dividi com pessoas muito especiais, como minha filha, a minha mãe, minha terapeuta e minhas amigas.
Instituto JCA: Como foi a imersão em Nova York?
Maysa Gil: Eu fiquei impressionada com a organização e com a fluidez da proposição da agenda. Eram 76 lideranças de diferentes países, uma programação que durava o dia inteiro e todos reunidos em um ambiente de troca e colaboração. A proposta era intensa, mas também muito cuidadosa, desde o conteúdo até os detalhes como alimentação, hospedagem e espaços de diálogo. Eu estava lá e pensava: “Quero replicar isso quando eu voltar. Esse é meu desejo”. Também participei de visitas técnicas e dinâmicas em grupo. Em um processo formativo, tudo isso é importante para mim.
Instituto JCA: Quais foram os principais desafios durante essa formação?
Maysa Gil: Os primeiros encontros online já foram desafiadores. Estar com lideranças das Américas, ouvir, compreender e interagir em inglês exigiu muito. Não foi o idioma em si o maior desafio, mas o combo: estar em um lugar novo, em outro país, com uma nova língua, que eu tinha que falar e ouvir o tempo todo. A formação não teve tradução. Precisei multiplicar minha dose de coragem. Teve dia que, após horas de formação, eu disse a mim mesma: “Fica aqui. Você já tá aqui”. E fiquei. Porque valia muito estar ali.
Instituto JCA: E quais foram os principais aprendizados?
Maysa Gil: Eu tive meus primeiros diálogos com lideranças da América Latina envolvidas em diferentes iniciativas — algo que me atrai muito e que desejo aprofundar. Durante a imersão em Nova York, um dos primeiros insights que registrei nas minhas anotações, em letras garrafais, foram as palavras “comunicar” e “simplificar”. Também aprofundei uma série de habilidades e competências, como a capacidade de adaptação, a clareza na comunicação com propósito enquanto liderança, a habilidade de lidar com ambiguidades e enfrentar novos desafios, além de aprender a me recuperar rapidamente diante dos contratempos.
Instituto JCA: O que você trouxe na mala para aplicar no Instituto?
Maysa Gil: Para mim, o que ficou mais forte foi que esse mundão, é um mundão de complexidade. E também com a certeza de que o Instituto já é forte e reconhecido por isso. Sinto que é tempo de ressignificar os sentidos. Os desafios continuam, mas pedem novos jeitos de agir. Voltei com vontade de expandir diálogos, reforçar nossa presença em redes internacionais e mostrar aos jovens e colegas que sim, é possível, porque eu senti esse movimento interno também. Talvez esse desejo sempre esteve lá, mas hoje percebo a equipe voltando a estudar inglês, os jovens sonhando mais alto e percebo que, de alguma forma, eu inspiro isso.
Instituto JCA: Como essa experiência internacional influenciou sua visão sobre liderança e gestão no terceiro setor?
Maysa Gil: Acredito que essa experiência teve – e continua tendo – um impacto profundo na forma como eu enxergo a liderança e a gestão no terceiro setor. Foi um processo que envolveu muito pensar e fazer, mas também sentir. Hoje, percebo que minha atuação como líder está diretamente ligada aos conteúdos que vivi durante o programa, especialmente no que diz respeito à comunicação e à expressão como ferramentas para fortalecer relações, construir parcerias e expandir articulações.
Em termos de liderança e gestão, tive acesso, por exemplo, a uma ferramenta de feedback 360º, com contribuições da equipe e de outras pessoas envolvidas no programa. Isso me fez perceber o quanto é importante criar espaços de escuta e devolutiva nos contextos em que atuo. Mais do que saber que é importante, eu experimentei o valor dessa prática e isso reforçou a necessidade de aplicar esse tipo de ferramenta nas minhas relações de trabalho.
Essa vivência me trouxe muitos sinais: sobre o que eu já vinha fazendo e que vale a pena aprofundar, sobre o que talvez eu ainda não priorizava e agora vejo como importante, e sobre novas perspectivas e ferramentas que quero trazer para a minha prática daqui pra frente.
Instituto JCA: Que conselhos você daria para outras pessoas que desejam expandir suas experiências e conhecimentos internacionalmente?
Maysa Gil: O primeiro passo é reconhecer se isso realmente é um desejo seu e assumir esse desejo. Muitas vezes, quando a oportunidade aparece, bate o medo, e a gente pensa em recuar. Nessas horas é importante lembrar: “Eu quero isso”. Depois, vem a parte prática: identificar o que você precisa fazer e falar com pessoas de confiança que já trilharam caminhos parecidos, que possam te orientar. Também é importante se preparar: cultivar em você habilidades e conhecimentos que são valorizados nesse tipo de experiência. Pesquise, se informe, esteja atento às possibilidades e compartilhe seus planos com quem pode te apoiar nesse processo.
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