O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) reconheceu oficialmente a atividade de trancista, que agora possui um código próprio na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO): 5161-65. A regulamentação é resultado do Projeto de Lei nº 2831/2024, de autoria da deputada Rogéria Santos (Republicanos-BA), com apoio da vereadora Ireuda Silva (Republicanos-BA) e mobilização de lideranças políticas, sociais e culturais.
Tradicionalmente exercida por mulheres negras, a arte de trançar cabelos vai além da estética. Ela carrega história, resistência e cuidado. A regulamentação amplia o acesso a direitos trabalhistas, previdência social e políticas públicas voltadas ao empreendedorismo. Também fortalece o reconhecimento de saberes ancestrais que, por muito tempo, foram marginalizados.
Para Raquel Miranda, 30 anos, trancista e personagem no curta-metragem Enraizadas, o reconhecimento representa um avanço histórico. “Vejo como salto importante e um marco histórico para algo cultural que traz sustentabilidade para milhares de famílias no Brasil inteiro. Traz dignidade e segurança profissional. Agora podemos exigir nossos direitos, formalizar nossos negócios e ocupar mais espaços com orgulho do que somos”, conta a jovem, que começou atendendo na comunidade do Borel (RJ), em casa e a domicílio, e hoje tem um estúdio na Praça Saens Peña, na Tijuca.
A trajetória de Raquel com as tranças teve início em um momento difícil. Mas a prática tornou-se ofício e propósito. “Eu não estava no melhor cenário de vida quando comecei a trançar, mas de cara gostei. Também me agradou a possibilidade de elevar a autoestima das clientes e a minha também, por saber que existiam mulheres que se sentiam bem com o meu serviço. E o filme mudou a minha vida, me trouxe mais fundamento sobre o meu trabalho, mais perspectiva e mais propósito. Hoje o meu propósito é elevar a autoestima de mulheres negras”, relembra.
Para ela, ser trancista é mais do que exercer uma função, é uma missão com raízes profundas. “Ser trancista é elevar com ancestralidade a autoestima de mulheres negras. Trazendo a arte de transformar com resistência. Fazendo com que a vida de mulheres negras seja mais prática, bela, confortável e livre esteticamente”.
Formação e autonomia: iniciativas que fortalecem o ofício
Capacitação, empreendedorismo e reconhecimento caminham juntos nesse cenário. No IJCA, desde 2019 são oferecidas formações na área. Em 2025, 33 pessoas cursam Beleza e Empreendedorismo, realizado em parceria com o Sebrae-RJ. Além de técnicas capilares, o curso oferece uma formação com conteúdos voltados ao desenvolvimento humano e à gestão de negócios, preparando as alunas para atuar com segurança e visão empreendedora.
Em São Paulo, o Instituto JCA também atua de forma estratégica na área, com parceria estratégica na formação “Trançando Vidas”, patrocinada pela Cometa via Proac-SP. Iniciada em 29 de julho no CCA Cidade Nova, no Parque Vila Maria, a capacitação é gratuita e voltada para mulheres a partir de 18 anos. Com duração de quatro meses, aborda técnicas como tranças nagô, box braids, twists e fulani braids.
“Ambas as iniciativas unem valorização cultural, geração de renda e preservação dos saberes ancestrais, promovendo o protagonismo feminino nas periferias. Ao investir em formação técnica aliada ao desenvolvimento humano e à gestão de negócios, fortalecemos a autonomia das participantes e ampliamos suas possibilidades de atuação no mercado”, afirma Elen Sileni, analista de projetos do IJCA.
Julho das Pretas
O reconhecimento da profissão também ganha relevância no contexto do Julho das Pretas – campanha anual que celebra a luta e a resistência das mulheres negras no Brasil, com foco no dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
Como parte da programação, o IJCA promoveu a exibição pública do curta-metragem “Enraizadas”, com a participação de representantes da Secretaria da Mulher de Niterói e do Fórum Municipal das Mulheres Negras de Niterói. Após o filme, houve uma roda de conversa com participação de integrantes do curso de Beleza e Empreendedorismo e da própria Raquel Miranda, hairstylist especializada em tranças e corte.
Dirigido por Gabriele Roza e Juliana Nascimento, o filme convida à reflexão sobre ancestralidade, memória e os caminhos de resistência trilhados por mulheres negras por meio da arte de trançar. Para Raquel, o reconhecimento formal é apenas um dos passos. “É fundamental investir em formação acessível, incentivar o empreendedorismo feminino, criar políticas públicas para afroempreendedores e incluir mais trancistas em feiras, eventos e campanhas de beleza. Também é essencial que a sociedade reconheça o valor simbólico e cultural das tranças, não como modismo, mas como herança viva de um povo”, finaliza.
