Jessé Fernandes, tem 17 anos, é morador do bairro Fonseca, em Niterói, e faz parte do programa Fortalecendo Trajetórias. Ele divide os dias entre o Colégio Pedro II, ensaios musicais, apresentações e a responsabilidade de ser o irmão mais velho de quatro filhos. “Às vezes eu sinto um peso de que tenho que ser referência para eles, e também ajudar minha mãe, mas não me vejo de outra forma”, diz sem reclamar do papel que encara com carinho.
A mãe, Hélia Fernandes, atualmente confeiteira, deixou Itaboraí após a morte do pai de Jessé. A família se mudou para Niterói em busca de melhores oportunidades educacionais para ele e os irmãos. “A qualidade de ensino mudou muito, melhorou mil vezes”, ela lembra.
Foi por meio de um post no Facebook que Hélia descobriu o Fortalecendo Trajetórias e inscreveu o filho, que precisava de reforço escolar em português e matemática. Para ela, que nem sabia da existência de colégios federais, o Instituto revelou um universo novo: processos seletivos, escolas públicas de excelência e oportunidades educacionais que antes pareciam inacessíveis. “Só vindo para cá que abriu esse leque de oportunidade”, conta, reconhecendo o impacto direto na trajetória do filho.
Para o adolescente, o primeiro contato com o Instituto também foi um choque de realidade. Nas aulas, descobriu lacunas de aprendizagem e, ao mesmo tempo, encontrou acolhimento para superá-las. “A professora passou uma prova só para saber como os alunos estavam, e muito do que tinha lá eu não sabia o que era”, relembra.
Música: de Niterói a Barcelona
Mas nada transformou Jessé tanto quanto a música. O interesse surgiu quase por acaso: um pequeno grupo de músicos passou tocando pela comunidade onde morava e ele ouviu da janela, encantado. Dias depois, descobriu que o grupo era ligado à igreja local, e foi até lá. “Eu olhei, fascinado. Falei ‘Eu quero’”, relembra, revivendo a cena que marcou o início da história musical.
Começou na flauta doce, migrou para o eufônio e mais tarde para a tuba. Para ele, a música mudou tudo. “Se não tivesse a música, eu ainda estaria em casa preso. Eu não saía muito de casa”. Com o incentivo de professores de música, ingressou na Orquestra Sopros do Rio e no programa Aprendiz Musical. E foi por meio deles que viu seu mundo se expandir.
Em julho de 2025, viveu a experiência mais marcante da sua vida: a primeira viagem internacional. Após participar de festivais em Vassouras e em Campos dos Goytacazes, veio o convite inesperado. A UNESCO selecionou a Orquestra de Sopros do Aprendiz Musical, na qual ele faz parte, para uma apresentação no Mondiacult, a Conferência Mundial da Unesco sobre Políticas Públicas de Cultura, em Barcelona. Para muitos, inclusive para ele, parecia impossível. “Isso estava muito longe da minha realidade”, confessa.
A correria para emitir passaporte, ensaiar o repertório e organizar a viagem só aumentou o sentimento de conquista. Em Barcelona, encantou-se com a arquitetura de Antoni Gaudí, os museus e a sensação de segurança nas ruas. “As coisas parecem ser um pouco mais fáceis que aqui. Isso mexeu muito comigo”, reflete. Mas o que mais mudou foi a percepção de futuro: “As coisas estão mais próximas do que parecem”, diz Jessé.
A mãe que sonha junto
Para Hélia, assistir a tudo isso é colher os frutos de anos de luta. Ela conta que o Instituto JCA, a igreja, a música e os professores foram pilares que abriram caminhos que ela mesma não teve, e resume o sentimento dizendo: “Para mim é um sonho. Vale muito a pena tudo o que a gente fez para eles chegarem até onde estão chegando”.
Jessé segue estudando, ensaiando e tocando. Tem planos e quer terminar o ensino médio, estudar para concursos ligados à música, fazer o Enem e cursar faculdade na área. A rotina é exaustiva, mas ele sabe que cada passo amplia a partitura da própria história. E agora, depois de Barcelona, ele acredita que pode ir ainda mais longe.
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